O Mercado Livre divulgou o balanço do segundo trimestre de 2026 com receita líquida de US$ 10,2 bilhões, alta de 50%, e GMV de US$ 21,9 bilhões, alta de 44% em dólar (36% em moeda constante). No Brasil, principal mercado do grupo, o GMV subiu 39% em moeda local e o número de itens vendidos cresceu 56%, segundo o InvestNews. Mesmo com esses números, os papéis caíram no próprio dia da divulgação: o BDR MELI34 recuou 8,08% na B3 e a ação ordinária MELI, listada na Nasdaq, caiu 7,01%. O que pesou foi uma linha só do balanço — a margem bruta caiu 4,7 pontos percentuais e fechou em 40,9%.
Os números do trimestre
| Indicador | 2T26 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | US$ 10,2 bi | +50% |
| GMV | US$ 21,9 bi | +44% (dólar) / +36% (moeda constante) |
| GMV Brasil | — | +39% em moeda local |
| Itens vendidos no Brasil | — | +56% |
| Margem bruta | 40,9% | -4,7 p.p. |
| Lucro operacional (EBIT) | US$ 683 mi | margem de 6,7% (era 12,2%) |
| Lucro líquido | US$ 466 mi | acima dos US$ 433 mi esperados |
| Carteira de crédito | US$ 16,4 bi | +75% |
Por que a ação caiu num trimestre recorde
Porque o crescimento veio caro. O lucro operacional de US$ 683 milhões representa margem de 6,7%, contra 12,2% um ano antes. O InvestNews resume a pressão em três causas: o aumento dos custos logísticos, os incentivos a compradores e vendedores e o avanço da operação 1P.
Vale traduzir a terceira, porque ela é a menos comentada e a que mais mexe com você. 1P é a venda direta: em vez de só hospedar anúncios de terceiros (o 3P, que é o seu caso), o próprio Mercado Livre compra o produto do fornecedor e revende. Isso derruba a margem da plataforma, porque estoque e frete próprios custam caro, e ao mesmo tempo coloca a plataforma como concorrente na mesma página de busca em que você anuncia.
Isso não é novidade de agora: o mesmo movimento já aparecia no balanço do primeiro trimestre, quando a companhia anunciou investimento bilionário no Brasil. A diferença é que agora o mercado começou a cobrar a conta.
O que isso significa para quem vende na plataforma
1. A demanda está lá, mas o preço médio por item caiu
Itens vendidos crescendo 56% no Brasil contra GMV subindo 39% quer dizer uma coisa: o preço médio por item vendido caiu. Saíram mais unidades, e cada unidade valeu menos. Parte da explicação é o piso do frete grátis: em 6 de junho de 2025 o Mercado Livre derrubou o valor mínimo de R$ 79 para R$ 19 e disse que absorveria o custo, o que tornou elegível praticamente todo o catálogo barato (InfoMoney, 06/06/2025). Quando o frete deixa de ser barreira no item de R$ 25, sai mais item de R$ 25 — e o ticket médio cai junto. Se isso apertou a sua conta, veja como reduzir o custo de frete no Mercado Livre.
O que esse dado não diz é quantos pedidos foram. O Mercado Livre não divulgou número de pedidos nesse recorte, e item mais barato pode significar tanto mais pedidos pequenos quanto mais itens dentro do mesmo carrinho — o segundo caso daria menos etiquetas, não mais. As duas hipóteses existem, e a sua você confere sozinho: abra o relatório dos últimos 12 meses e compare a curva de itens vendidos com a de pedidos faturados. Se os pedidos cresceram mais rápido que o faturamento, o custo fixo de cada pedido — etiqueta, embalagem, separação, emissão de nota — passou a comer uma fatia maior de cada real que entra, porque esse custo não cai quando o ticket cai.
2. Seu custo por pedido mudou em março — e não do mesmo jeito em todas as modalidades
Nos Envios Full, desde 2 de março de 2026 a taxa fixa por unidade que valia para os anúncios abaixo de R$ 79 saiu de cena. No lugar dela entrou um custo operacional variável, calculado a partir de três informações ao mesmo tempo: peso do pacote, cubagem (as dimensões da embalagem) e preço do anúncio. As tarifas de Coleta também foram mexidas na mesma data, com reajuste que varia conforme distância e volume. Já no Flex a lógica continua a mesma: itens abaixo de R$ 79 seguem com custo fixo por unidade, com valores reajustados.
Essa distinção decide a sua conta. Quem despacha item pequeno e denso pelo Full tende a pagar menos que antes; quem manda produto volumoso e barato pela mesma modalidade — travesseiro, organizador, brinquedo grande — viu a margem encolher, porque a cubagem passou a entrar no cálculo. Já quem vende pelo Flex continua com um número previsível por unidade e só precisa conferir o valor novo. Entenda como a tarifa variável por peso e cubagem é calculada antes de culpar a comissão.
3. A plataforma também está do outro lado do balcão
O avanço do 1P entra no balanço como causa de margem menor e chega até você como concorrência. Some a isso a marca própria Basics e fica claro que, em algumas categorias, você não disputa só com outro seller: disputa com quem define o ranqueamento da busca. Esse tabuleiro você não controla. O que dá para controlar é a escolha de categoria e saber, antes de entrar numa guerra de preço, quanto sobra em cada venda sua.
A conta que você deveria refazer esta semana
Pegue um produto real seu e faça a conta com os custos de hoje, não com os de 2025. O exemplo abaixo usa números hipotéticos, só para mostrar a estrutura — troque cada linha pelo seu número real: item de R$ 59,90, custo de compra de R$ 24,00, embalagem de R$ 1,50 e R$ 6,50 de custo de envio por unidade. Esse R$ 6,50 é chute, não é tarifa oficial — e o lugar de onde você puxa o número certo depende da modalidade: no Full, é o custo operacional da faixa de peso, cubagem e preço do seu anúncio; no Flex, é o custo fixo por unidade da sua faixa. Os dois estão na tabela de custos de envio do seu painel de vendedor, e não são o mesmo número.
| Linha | Clássico (comissão hipotética de 12%) | Premium (comissão hipotética de 17%) |
|---|---|---|
| Preço de venda | R$ 59,90 | R$ 59,90 |
| Comissão | - R$ 7,19 | - R$ 10,18 |
| Custo de envio por unidade (Full: operacional da sua faixa / Flex: fixo da sua faixa) | - R$ 6,50 | - R$ 6,50 |
| Produto + embalagem | - R$ 25,50 | - R$ 25,50 |
| Simples Nacional (4%, 1ª faixa do Anexo I) | - R$ 2,40 | - R$ 2,40 |
| Sobra | R$ 18,31 (30,6%) | R$ 15,32 (25,6%) |
São R$ 2,99 de diferença por pedido nesse exemplo. Em 300 pedidos no mês, R$ 897. Mas repare: os 12% e os 17% também são chute. A comissão do Mercado Livre varia por categoria e por tipo de anúncio, então consulte a tabela oficial no seu painel de vendedor e use o percentual da sua categoria antes de decidir preço. Se você é MEI, troque a linha do Simples pelo DAS fixo mensal, que não é percentual sobre a venda. O passo a passo completo está em como calcular o lucro real no marketplace.
Três ajustes práticos
- Pese e meça a embalagem fechada, não o produto. No Full e na Coleta a cubagem entra na conta, e caixa folgada é dinheiro que você paga sem vender nada;
- Revise Clássico x Premium item a item. Em produto de margem apertada e baixa concorrência, a comissão menor do Clássico costuma valer mais que o parcelamento sem juros do Premium;
- Tire a nota e a etiqueta do trabalho manual. Com o volume crescendo nesse ritmo, emitir uma por uma vira gargalo — comece por emitir a nota fiscal do Mercado Livre automaticamente.
Fontes: reportagens do InvestNews e do Money Times sobre o resultado do 2T26 da MercadoLibre; InfoMoney sobre a queda do piso do frete grátis de R$ 79 para R$ 19, em 6 de junho de 2025; e o resumo das mudanças de custo válidas desde 2 de março de 2026. Comissão, tarifa e custo de envio mudam sem aviso: antes de fechar preço, confira a tabela oficial no seu painel de vendedor.
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